A internet angolana e lusófona foi recentemente impactada por uma entrevista polêmica no canal Fly Skuad TV, onde o convidado Cólua Tremura, acompanhado por Bondoso, apresentou uma perspectiva não convencional sobre as prioridades financeiras e sociais do homem moderno. O cerne da discussão gira em torno de uma afirmação audaciosa: “Homem tem que ter carro e não comprar terreno”.
Nesta análise detalhada, exploramos os fundamentos dessa teoria, que mistura observações sobre o mercado de relacionamentos, a logística urbana e a psicologia da segurança doméstica, oferecendo uma visão que desafia o senso comum de investimentos imobiliários tradicionais.
Cólua Tremura: O Romantismo como uma Questão de Infraestrutura
Um dos pontos centrais levantados por Cólua Tremura é a ideia de que o romantismo não é apenas um sentimento, mas algo que exige condições materiais para ser exercido sem humilhação. Segundo ele, as mulheres costumam simular um “romantismo retórico”, mas, na prática, a eficácia de um gesto romântico está diretamente ligada ao status e ao meio de transporte do homem.
O Dilema do Buquê no Transporte Público
remura ilustra essa realidade com o exemplo de um homem que tenta ser romântico sem possuir um veículo próprio. Ele afirma que levar um buquê de flores dentro de um táxi coletivo (lotadora) é uma experiência vergonhosa, comparando a cena a um velório onde o homem “esqueceu o caixão”.
A análise aponta para vários problemas práticos e sociais:
- O julgamento alheio: Outros homens desdenham de quem tenta ser romântico nessas condições, muitas vezes presumindo que o gesto é um pedido de desculpas por uma traição.
- A logística do táxi: No ambiente apertado de uma lotadora, o buquê torna-se um estorvo, onde o homem é “apertado” entre os passageiros, perdendo qualquer aura de dignidade ou exclusividade.
- O custo-benefício: Flores são caras, custando entre 3.000 a 5.000 Kwanzas por peça, e Tremura argumenta que gastar 50.000 Kwanzas em um buquê para depois ter que “falar mais” ou usar versos do ChatGPT para ter impacto não faz sentido se o homem não tem o básico, que é o transporte.
A Realidade Prática: Carro como Ferramenta de Status e Segurança
Para Cólua Tremura, para quem tem uma família ou uma mulher, a prioridade absoluta deve ser o carro, e não o terreno. Ele argumenta que a vida de um homem sem carro é marcada por constantes episódios de bullying e desrespeito social.
O “Bullying” na Paragem e no Táxi
O conteúdo descreve de forma vívida o sofrimento de um casal sem carro. Ao acompanhar a parceira até a paragem de táxi, o homem está sujeito a comentários maldosos de terceiros e a situações onde não pode sequer dar um beijo de despedida sem ser alvo de piadas.
Além disso, a percepção da própria esposa muda dentro de um transporte público lotado. Tremura observa que, quando o cobrador aperta os passageiros e o marido fica em uma posição desconfortável ou “emagrecido” no assento, a mulher começa a olhar para ele com desdém, questionando a escolha do parceiro.
A Paternidade e o Veículo
A análise estende-se à criação dos filhos. Tremura afirma que buscar um filho na creche a pé pode ser interpretado de forma suspeita, quase como um “sequestro” pela cuidadora, enquanto buscar a criança de carro confere uma imagem imediata de provimento e segurança. Ele também destaca o caos de viajar com crianças em táxis coletivos, onde o pai muitas vezes precisa “simular” e lidar com a sujeira e o desconforto de dividir espaço com estranhos que não têm paciência para os pequenos.
O Problema do Terreno: Entre “Bungladores” e a Psicologia Feminina
Um dos argumentos mais controversos de Cólua Tremura é que o terreno serve prioritariamente para agradar a mulher, e não ao homem. Ele descreve a compra de terreno como um processo desgastante e cheio de armadilhas.
- Dificuldades na construção: O homem enfrenta lutas constantes com pedreiros que “roubam cimento” e paredes que ficam tortas, exigindo gastos infinitos com reboques e correções.
- O Ritual de Domingo: Tremura afirma que visitar o terreno aos domingos é um “dia universal da mulher”, servindo apenas para um propósito psicológico onde o homem “bugla” (engana/fantasia) sobre o futuro da casa para manter a parceira satisfeita.
- Segurança vs. Relevância: A teoria apresentada sugere que, no subconsciente feminino, a construção de uma casa própria pode tornar o homem “dispensável”. Tremura argumenta que, como estatisticamente os homens morrem antes, as mulheres focam na casa como uma garantia de segurança para o futuro sem o marido. Segundo ele, uma vez que o terreno está comprado e a casa feita, a mulher pode parar de se importar tanto com o bem-estar do homem, pois o “teto” já está garantido.
Por que o Carro Aumenta o “Brilho” do Homem?
Diferente do terreno, que é um bem estático e muitas vezes focado no futuro ou na segurança da família após a ausência do provedor, o carro é visto por Tremura como algo que mantém o “brilho” e a relevância do homem no presente.
Estar sem carro é comparado à pobreza e à perda de dignidade. Ele menciona que um homem que passa muito tempo na paragem de táxi começa a ver seu valor diminuir. Em contraste, o carro oferece uma “experiência” de vida superior, permitindo que o homem navegue pela cidade com autoridade, mesmo que tenha que lidar com os desafios ocasionais de mecânicos ou acidentes de trânsito.
Reflexão sobre Prioridades e Sociedade
A análise de Cólua Tremura e Bondoso no Fly Skuad TV não deve ser vista apenas como um conselho financeiro, mas como uma crítica social sobre as expectativas de gênero e o status na sociedade contemporânea. Embora a recomendação de priorizar um bem depreciável (carro) sobre um ativo que valoriza (terreno) possa parecer contraintuitiva sob o ponto de vista estritamente econômico, Tremura foca na “economia da dignidade” e na qualidade de vida imediata.
Seus argumentos ressaltam como o ambiente urbano e as dinâmicas de relacionamento em Angola (e por extensão em contextos similares) moldam as escolhas dos indivíduos. Para Tremura, o carro é o que define o “homem de verdade” no cotidiano, enquanto o terreno é um investimento para a segurança da família que, ironicamente, pode diminuir a importância central do homem no lar.
Esta discussão levanta questões importantes:
- Até que ponto o status social deve ditar nossos investimentos?
- Como as infraestruturas de transporte público precárias forçam os cidadãos a priorizar veículos privados?
- Qual é o equilíbrio ideal entre o conforto presente e a segurança futura?
Independentemente de concordar ou não com as conclusões de Cólua Tremura, é inegável que sua fala toca em pontos sensíveis da vivência masculina e das pressões sociais por provimento e reconhecimento.