Os bastidores da RRPL (Reis do Rompimento Primeira Liga) continuam a dar muito que falar. Recentemente, o movimento Hip Hop angolano foi abalado pelas polémicas declarações do rapper Punchlinero sobre a conduta de Inamoto, ex-colaborador da organização, e a gestão liderada por Fly Skuad. As revelações trazem uma lição crua sobre a linha ténue que separa a amizade pessoal do pragmatismo empresarial no mundo do entretenimento em Angola.
Nesta análise do Cassette Promo, entramos a fundo na entrevista concedida por Punchlinero ao canal Congo Records Tv, onde o “gladiador” expõe o que considera ser um inevitável ajuste de contas do destino.
A Confusão Entre Amizade e Negócio
Um dos pontos mais sensíveis abordados por Punchlinero é a forma como Inamoto interpretava o seu papel dentro da maior liga de rompimento do país. De acordo com o rapper, Inamoto funcionava como um prestador de serviços técnico normal, sendo devidamente pago pelo seu trabalho de edição de vídeo. O grande erro terá sido confundir a proximidade e a confiança do CEO, Fly Skuad, com uma participação societária ou direitos sobre a empresa que, de facto, nunca existiram.
Punchlinero explica que expressões motivacionais do género “o mambo é nosso” eram usadas no início do projeto para dar força à equipa e aguentar as dificuldades financeiras da fase inicial. No entanto, Inamoto assumiu isso como uma promessa de sociedade formal, esquecendo-se de que a sua ligação à marca dependia estritamente de um contrato de trabalho.
Inamoto Contra os Gladiadores: O Boicote aos Salários
A revelação que mais chocou os fãs do movimento diz respeito à postura de Inamoto nas reuniões onde se debatiam os cachês dos artistas. Punchlinero afirma categoricamente que Inamoto era a voz que mais combatia a valorização salarial dos rappers dentro da RRPL.
Em reuniões históricas, como a que aconteceu na Escola Zingamband em 2015, os gladiadores exigiam contratos fixos que variavam entre os 250.000 e os 400.000 kwanzas por batalha. Segundo o relato, Inamoto boicotava essas propostas questionando o valor do talento dos artistas, argumentando que era um valor exagerado “apenas para quem vai ali rimar”.
“O gajo que mais falava sobre guita para os gladiadores não ganharem bem na RRPL era o Inamoto. Sem papas na língua, eu sempre soube disso”, disparou Punchlinero.
O rapper aponta ainda a ironia da situação atual: enquanto os gladiadores enfrentavam meses de seca financeira e só ganhavam quando batalhavam, Inamoto recebia um rendimento fixo e estável por cada edição de vídeo finalizada, chegando a acumular valores superiores aos dos próprios protagonistas do espetáculo.
Arrogância e Barreiras no Backstage
Para além do fator financeiro, o veterano do rompimento descreveu um ambiente de controlo excessivo exercido pelo ex-editor no backstage. Inamoto é acusado de tentar colocar-se acima dos próprios artistas e de criar barreiras de acesso ao CEO da liga. Punchlinero relembrou episódios em que Inamoto usava seguranças ou “guardas” para impedir que os rappers conversassem com Fly Skuad após os eventos, agindo como se fosse o “segundo homem do cartel”.
Essa postura de superioridade estendia-se ao desdém por figuras históricas do movimento. O editor terá tentado travar a participação de lendas da liga, como Paisão e Jeucal. Punchlinero criticou duramente o facto de Inamoto ter gozado publicamente com o álbum de Jeucal, ignorando o esforço de quem vem da “street” e luta para vencer na música sem ter uma estrutura financeira por trás.
Fly Skuad: O Papel de CEO e Benfeitor
A entrevista também serviu para esclarecer a verdadeira postura de Fly Squad perante o grupo. Longe de ser um empresário frio, o relato mostra que Fly muitas vezes funcionava como um benfeitor pessoal dos rappers. Punchlinero revelou que as rendas de casa e as despesas básicas de subsistência de vários gladiadores em dificuldades eram pagas diretamente do bolso de Fly Skuad que utilizava o salário do seu emprego na Unitel para dar esse suporte.
Essa distinção é fundamental. A RRPL, enquanto negócio puro, podia não gerar o lucro necessário para garantir salários altos a todos, mas a generosidade de Fly mantinha os artistas protegidos. O desagrado do movimento reside no facto de Inamoto usufruir dessa mesma proximidade enquanto minava as hipóteses de os outros evoluírem.
A Teoria do Karma e a Realidade Atual
O desabafo de Punchlinero foca-se na ideia de que a atual tristeza e as reclamações públicas de Inamoto sobre a “falta de valorização” são apenas o resultado daquilo que ele próprio semeou no passado.
Para os rappers que se sentiram maltratados ou desvalorizados pelas suas opiniões, ver o antigo editor expor a sua frustração na internet é visto como o “karma” a funcionar. Punchlinero rematou lembrando que a técnica é importante, mas os verdadeiros donos do espetáculo são os artistas: sem rimas e sem gladiadores no palco do Elinga, não haveria nada para filmar ou editar.
Para os leitores do Cassette Promo e os profissionais do entretenimento angolano, este caso deixa um aviso claro: a transparência contratual e o respeito por quem constrói a arte são os únicos caminhos para manter um projeto sólido e respeitado a longo prazo.